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O leitor sofisticado | Entrevista com Olyveira Daemon

Foto: Tereza Yamashita

Olyveira Daemon (@paisagem.personas) ainda não nasceu. Para não assustar os amigos, prefere mentir que nasceu no dia 16 de agosto de 1966, em Mahagonny, maior cidade da Ilha do Dia Anterior. É ensaísta e professor livre-docente de literatura xamânica na Universidade de Macondo (UNIMAC). Leu e releu todos os livros, assistiu mais de uma vez a todos os filmes. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Prefere os destilados aos fermentados. Fala fluentemente doze idiomas secretos, incluindo o das abelhas: a ironia. Anos atrás buscou asilo político no paraíso, mas cansado de tanto silêncio decidiu voltar ao inferno. Pesquisa a imortalidade por meio do upload da consciência. Só acredita em biografias imaginárias. E na beleza moral do céu estrelado dentro de nós. Venceu duas vezes o importante e impossível Prêmio Príncipe de Cstwertskst, na categoria conto (1996) e na categoria romance (2006). Principais livros: Gigante pela própria natureza (romance, 2019), Poeira: demônios e maldições (romance, 2010), Ódio sustenido (contos, 2007) e Subsolo infinito (romance, 2000).

Para Olyveira Daemon, literatura é “realidade virtual da melhor qualidade.” E segundo ele, a escrita é uma promessa, pois sua mágica só se cumprirá quando for apreciada pelo leitor.


Caixa-preta é o quadro de entrevistas deste blog. E sendo caixa-preta “qualquer sistema, organismo, função, etc., cujo funcionamento ou modo de operação não é claro ou está envolto em mistério”, representa uma ideia que se aproxima da literatura.

Na sexta-feira, a cada quinze dias, confira uma nova entrevista.


O que a escrita causa em você?

Primeiro uma vibração alquímica, em seguida um gozo intelectual, o início de um estado energético mais sutil e gratificante… Durante a escrita de um poema, uma ficção ou um ensaio, sou atravessado por sensações sublimes, ligadas às camadas mais sensacionais da consciência. Na verdade, durante o mergulho na linguagem literária, razão e emoção entram em simbiose perfeita, disparando percepções mais refinadas da realidade… Breves epifanias profanas costumam ocorrer nesses momentos. A escrita de qualquer texto, em prosa ou verso, é minha porção diária de cogumelos mágicos, sem os cogumelos mágicos. Isso me leva a crer que na própria linguagem há uma grande concentração de psilocibina, ou de uma substância muito parecida.

Qual a maior aventura de um escritor?

Causar um grande impacto nas melhores sensibilidades. Conectar-se profundamente com o maior número possível de leitores sofisticados. Escrever obras que deixem uma impressão duradoura nas pessoas mais interessantes deste planetinha.

Que livro você gostaria de ter escrito?

“A divina comédia”. Mas seguindo do final para o início: começando no Paraíso, passando pelo Purgatório e finalizando no Inferno. Esse arranjo expressa melhor o mundo contemporâneo. Obviamente eu batizaria essa obra de “A divina tragédia”. Mas talvez eu prefira escrever “A divina tragicomédia”… Feito um pêndulo, nossos protagonistas iriam do Paraíso ao Inferno, passando pelo Purgatório, então retornariam ao Paraíso, passando mais uma vez pelo Purgatório, antes de refazerem a jornada, infinitamente. Pra temperar ainda mais a experiência da viagem e da leitura, eu confundiria as estações, transformando o Paraíso ora no Inferno ora no Purgatório, e substituiria todos os personagens de tempos em tempos. Também seria interessante mudar o idioma a cada novo movimento pendular.

Que livro você jamais escreveria?

“A divina tragicomédia”.

O que ainda falta ser dito em literatura?

Sempre que visito uma grande livraria ou uma grande biblioteca, a simples visão das incontáveis estantes cheias de livros que jamais terei tempo de ler – a vida é curta demais – me convence de que tudo já foi dito em literatura. Simples assim: tudo já foi dito em literatura, mas ninguém jamais teve ou terá a oportunidade de ler tudo o que já foi dito em literatura. E muito do que já foi dito em literatura se perdeu talvez pra sempre, devido a perseguições, desinteresse, guerras e fatalidades naturais. Em relação às obras desaparecidas, é claro que precisaremos dizer de novo tudo o que foi perdido.

Livro bom é…

…a realização bem-sucedida da tecnologia de realidade virtual. Hoje em dia muito se fala nessa tecnologia e nos dispositivos eletrônicos que permitem ao usuário vivenciar as simulações mais fascinantes. Mas a escrita já permite esse tipo de imersão há muitíssimos séculos. Ao ler uma excelente obra em prosa ou verso, não somos momentaneamente transportados pra outra realidade? Um novo universo rico em detalhes não se materializa em nossa mente? Isso é realidade virtual da melhor qualidade.

Escritor é uma criatura…

…múltipla, sempre no plural. Ainda existem escritores de todas as cores e sabores, pra todas as sensibilidades. Mas até quando? Essa é a grande questão do nosso tempo. Com o avanço da inteligência artificial, até quando haverá escritores cem por cento humanos? Atualmente as máquinas conseguem analisar grandes quantidades de textos publicados e produzir novos contos, poemas e até mesmo romances, num curto espaço de tempo. É verdade que a criatividade e a expressão artística são aspectos intrinsecamente humanos, mas a inteligência artificial ainda é jovem… A máquina está evoluindo. A máquina não descansa nunca. A máquina está aprendendo a simular, com grande rapidez, a escrita criativa e outras habilidades subjetivas puramente humanas.

Qual o papel de um escritor na sociedade?

Meu tipo predileto de escritor é o incendiário, que não tem medo nem preguiça de tacar fogo no parquinho, de “desafinar o coro dos contentes”, como dizia Torquato Neto. Meu tipo predileto de escritor é o guerrilheiro, cuja função neste mundo é uma só: encher o saco dos cossacos.

Qual o maior aliado de um escritor?

Certamente o leitor sofisticado. Ou seja, alguém que fará do texto uma experiência profunda, de natureza estética, iniciando sem demora um diálogo produtivo com a obra e o escritor. Essa aliança costuma promover mudanças tanto no escritor quanto no leitor.

Como encontrar a palavra certa, o termo justo, a frase ideal?

Há meia dúzia de maneiras eficientes. A minha predileta é me colocando em estado de transe místico. Então a palavra certa, o termo justo, a frase ideal virão naturalmente ao meu encontro.

O quê que não dá para ser dito com palavras?

Santa aporia, Batman! Ninguém sabe… O que não dá pra ser dito com palavras jamais será dito com palavras. O máximo que nós conseguimos é caminhar ao longo da fronteira que separa o dizível do indizível. E fantasiar com o que possa existir do outro lado. Exatamente como acontece com o universo que habitamos. Ninguém sabe o que existe para além dos limites do universo.

Se você pudesse, o que diria para o algoritmo?

Delire, meu chapa. Enlouqueça. Mergulhe na magia do caos.

E se você pudesse mudar o lema da bandeira nacional para um que representasse o Brasil atual, para qual seria?

Nas redes sociais apareceu uma sugestão que me agradou: “O bagulho é doido, mas eu sou mais doido que o bagulho.” Essa frase me representa. E tenho certeza de que representa milhares de artistas e escritores brasucas. Na impossibilidade de trazer minha doideira e a doideira do bagulho pra nossa bandeira, pensemos um pouco… “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim.” Dessa frase do filósofo Augusto Comte surgiu o lema positivista “Ordem e progresso” de nossa bandeira. Minha sugestão é que a palavra Amor seja incluída no início da frase. Aliás, em minha novela-vertigem “Gigante pela própria natureza”, essa questão aparece o tempo todo. Tanto que a narrativa foi dividida em três partes: justamente Amor, Ordem e Progresso.

Qual a sua maior alegria ao escrever?

A percepção de que estou construindo uma experiência profunda que se consolidará somente mais tarde, durante a leitura. Explico: durante o trabalho de escrever qualquer coisa – um ensaio, um conto, um poema ou um romance – a mágica não acontece. Ela é somente uma promessa… A mágica só acontecerá, de fato, quando a obra estiver pronta e eu puder apreciá-la, na posição do leitor.

Qual a melhor maneira de encarar a página em branco?

A página em branco é sempre um espelho introspectivo, um reflexo mental em construção. Literatura é um tipo oceânico de sonho lúcido. Um tipo atípico de viagem onírica. Todos os poetas e ficcionistas são oneironautas, exploradores do mundo-vertigem. Mas quando eu penso cuidadosamente no tipo de oneironauta que eu sou, quando me pergunto o que me trouxe ainda jovem pras ondas gigantescas da literatura, a conclusão é sempre a mesma: foi a filosofia. E a percepção da morte, porque essas duas loucuras − fome de conhecimento e medo da extinção − costumam nascer lado a lado e andam juntas a vida toda. “Gigante pela própria natureza” é meu livro mais recente. Navegando nele eu finalmente encontrei a resposta verdadeira para a questão fundamental: por que existimos? Confesso que não foi fácil suportar a verdade. Tive febre alta. Perdi parte das funções motoras. Passei dois meses preso à cama dessa delirante UTI chamada “existência”. Então decidi guardar (esconder?) a resposta nas linhas e entrelinhas de minha novela-esfinge. Onde ficará preservada para as gerações futuras, oxalá muito melhor preparadas pra aceitar a suprema verdade, imperatriz de todas as verdades.

Se você não pudesse mais escrever, o que faria?

Contrataria um ghost-writer.

A literatura em uma palavra.

Espelho.

Qual a coisa mais importante que você aprendeu com a escrita?

Foram duas coisas. Que a imaginação mais delirante também é autobiográfica (isso eu aprendi com a Aglaja Veteranyi) e que a literatura é uma forma poderosa de magia (isso eu aprendi com o Alan Moore). Na verdade, foram três coisas. Também aprendi que “só sei o que penso quando passo para o papel” (Paulo Francis).

Qual sua definição de felicidade?

Felicidade é ausência de medo. Vivemos numa sociedade altamente competitiva – base do sistema capitalista e da doutrina neoliberal, que promovem a luta de todos contra todos –, então vivemos apavorados com o fantasma do fracasso social e profissional. Felicidade são as poucas horas semanais em que, por alguma razão, esse fantasma deixa de me assombrar.

O que faz você continuar escrevendo?

O prazer de escrever aliado à necessidade de escrever. Exatamente igual ao prazer de respirar aliado à necessidade de respirar.

*Entrevista organizada ao som do disco Ummagumma, do Pink Floyd


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4 respostas

  1. Olyveira Daemom é adoravelmente inquieto. Realmente “coloca fogo no parquinho”. Subverte as ordens. Mexe, remexe e deixa nossos pensamentos presos em seus labirintos – ou em nossos labirintos. Um grande nome da literatura brasileira. Leitura imprescindível.

  2. Genial, caro mestre! Não poderia esperar nada menos do que estas maravilhosas respostas de uma entrevista com nosso mentor querido. Faltou dizer isso, Olyveira é um instigador potente, guiando aspirantes a escrevinhadores. Salve!

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Vanessa Passos

Eu vou te ajudar nessa jornada de escrita e publicação. Já orientei mais de 400 alunos através do método 321escreva.

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