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Escrita: bicho arisco | Entrevista com Dércio Braúna

Dércio Braúna (@derciobrauna) é cearense (de Limoeiro do Norte), bancário e historiador (doutor em história social/UFC, com estudos sobre as relações entre história e literatura). É autor de trezes livros individuais (poesia, conto, estudos e ensaios), entre os quais: Metal sem húmus (poesia/2008), Como um cão que sonha a noite só (conto/2010), Nyumba-Kaya: Mia Couto e a delicada escrevência da nação moçambicana (estudo/2014), Aridez lavrada pela carne disto (poesia/2015), Como cavalos fatigados abrindo um mar (poesia/2017); além de participação em obras coletivas (poéticas e historiográficas). Suas obras mais recentes são os volumes de poesia Esta solidão aberta que trago no punho (2019 / semifinalista no Prêmio Oceanos 2020) e Auto de incineração (2021).

Para Dércio, pode ser que, no futuro, não havendo necessidade de literatura, “apenas as telas de projeção-ilusão (de qualquer coisa, sobretudo de si) sirvam aos viventes do futuro como suprimento/acrescento de alma”. E segundo ele, “Os bons livros não se de-finem sobre o que são”.



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O que a escrita causa em você?

Sobretudo um sentimento de desafio, eu creio. Em mim, ela funciona como um modo de eu buscar saber se sou capaz de. Tenho desejos de dizer, de dar formas aos meus estranhamentos com o mundo, mas entre essa necessidade e sua formalização numa escrita eu me debato com esse sentimento de desafio. Conseguirei? É como se a escrita, à medida que avança, me fosse tentando: faz de mim alguma coisa se és capaz. 

Qual a maior aventura de um escritor?

Encontrar na escrita o que ele sabe que procura, o que ele sabe que está lá, porém não sabe como está. E ainda mais: ao final, saber que o que foi encontrado já se metamorfoseou em nova necessidade de outra busca. 

Que livro você gostaria de ter escrito?

Se tenho que dizer um, O evangelho segundo Jesus Cristo (Saramago). 

Que livro você jamais escreveria?

Qualquer um com receitas para (a prosperidade, a riqueza, o encontro com deus, a felicidade, o orgasmo, a salvação, etc).

O que ainda falta ser dito em literatura?

Impossível saber. Será a vida dos vivos ainda a virem que dirá o que precisa ser dito, se haverá necessidade disso que chamamos de literatura. Bem pode que apenas as telas de projeção-ilusão (de qualquer coisa, sobretudo de si) sirvam aos viventes do futuro como suprimento/acrescento de alma, substituindo assim o que – ainda em parte – a literatura nos faz. Quem há de saber? 

Livro bom é…

Livro que coloca problemas ao pensamento. O primeiro deles sendo o de se saber o que esse tal livro é, como classificá-lo. Os bons livros não se de-finem sobre o que são.

Escritor é uma criatura…

Estranha e solitária, mesmo quando não.

Qual o papel de um escritor na sociedade?

Expor, imaginativamente (se com ironia e alguma ternura, melhor ainda) como essa invenção chamada sociedade funciona e se ilusiona. Expor as engrenagens, a casa de máquinas, os andaimes, os intestinos, ou qualquer outra metáfora que se queira. O papel do escritor, da escritora, é nunca estar conforme. 

Qual o maior aliado de um escritor?

A inquietude com lentidão. Não é bom se escrever como descendente de Usain Bolt rs.

Como encontrar a palavra certa, o termo justo, a frase ideal?

Creio que só possa ser encontrável num estado provisório. É a palavra certa, o termo justo, a frase ideal para aquela altura, para aquele momento a que você pôde chegar. Possivelmente depois já não seja percebida como sendo.

O quê que não dá para ser dito com palavras?

O que só a pele (metáfora do corpo aqui) é capaz de saber. A palavra é aproximação. 

Se você pudesse, o que diria para o algoritmo?

Suma, escafeda-se. Foda-se.

E se você pudesse mudar o lema da bandeira nacional para um que representasse o Brasil atual, para qual seria?

Idiotismo e sucesso

Qual a melhor maneira de encarar a página em branco?

Desafiando-se. Colocando-se diante dela como quem enfrenta um animal arisco e forte. A página em branco é um exercício de tauromaquia (alguém já disse, e é) e não uma imersão terapêutica (como eu a concebo, não). 

Qual a sua maior alegria ao escrever?

Ela me vem se consigo domar a força caótica que domina o pensamento quando me sento diante da tela; se consigo arrancar das possibilidades todas a possibilidade mais densa. Sentir que as unhas se cravaram bem na carne do bicho arisco, do animal-caos.

Se você não pudesse mais escrever, o que faria?

Cuidaria das minhas plantas. Plantaria muitas mais, me especializaria em jardinagem.

A literatura em uma palavra.

Inquietação.

Qual a coisa mais importante que você aprendeu com a escrita?

A fazer relacionações, a tramar num texto o que a princípio não se cria poder estar nas mesmas linhas. Gosto dessa poética do inesperado. 

Qual sua definição de felicidade?

Não sei se dá pra definir o que talvez não exista (porque talvez só exista enquanto vai-sendo, enquanto se gasta, portanto não chega a ser). Mas simplicidade (mesmo não sendo definição) é uma boa rima rs.

O que faz você continuar escrevendo?

Teimosia.

*Entrevista organizada ao som do disco The universe smiles upon you, de Khruangbin


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Vanessa Passos

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