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Conseguir dizer | Entrevista com Renato Pessoa

RENATO PESSOA (@renato.pessoa) é escritor, crítico literário, ativista cultural, palestrante e professor de Filosofia. Estudou Filosofia na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade Estadual do Ceará – UECE. Publicou, em 2011, O Corpo Arcaico. Em 2012, publicou Solidão Singular. Em 2014 organizou o livro Retratos De Abismo E Outros Voos – Antologia De Poetas Cearenses Contemporâneos. Em 2016 publicou A Paisagem Da Febre. Em 2017, publicou O Homem do Último dia do Mundo. Em 2018, participa do livro Cinco Inscrições da Mortalidade. Em 2019, participa da antologia Resistências Escritas. É um dos criadores do Sarau O Corpo-Sem-Órgãos. É um dos idealizadores da Escola Popular de Filosofia. Em 2021, publicou o livro Este Que Nunca Soube Dar Nome às Pedras. Em 2023 participou do livro Tiro De Letras 2 – Continuada resistência de uma prosa brasileira.

Para Renato, “o escritor, como qualquer artista, só se realiza na denúncia e na criação de sentido“. E segundo ele, a literatura não é “apenas como artefato estético”.



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O que a escrita causa em você?

Toda escrita literária é um movimento. É um deslocar-se, antítese da passividade. Escrevemos porque a vida mesma não comporta estaticidades, exige de nós alguma reação, combatividade. Um bom poema, um bom romance, uma boa crônica, um bom conto faz-se, sobretudo, de desencaixes, operados na lógica das inconformidades. Leio e escrevo porque, afinal, a minha vida só é possível nos desvios. E a palavra literária é desviante, porque é invenção.  

Qual a maior aventura de um escritor?

Conseguir dizer. Quem escreve quer dizer, e dizer é da ordem da invenção. Nem sempre, quase nunca, conseguimos dizer, ou seja, há entre o real e a palavra uma incompletude originária. Dizer é uma selvageria rizomática, porque desobedece a certas lógicas que o real nos impera. Dizer é o oposto de explicar. Explicar circunscreve. Dizer desexplica e, por isso mesmo, inventa — e inventar é aumentar. Quantos escritores, na história da literatura, conseguiram dizer? 

Que livro você gostaria de ter escrito?

Eu queria ter escrito o Graciliano Ramos, ele mesmo, todo ele. 

Que livro você jamais escreveria?

Qualquer livro que diga: está aqui a verdade

O que ainda falta ser dito em literatura?

Ora, e já superamos a solidão? O desamparo? A morte e o tempo? Há alguma sociedade sem exploração, sem mentira, sem guerras e sem fome? Os ditadores, os tecnocratas, os burgueses e os infames ainda existem no mundo. A criança perdida e o suicida também. Há muito ainda o que dizer. A realidade humana, ou melhor, a condição humana, é inesgotável. E, como sujeitos, carecemos sempre buscar algum sentido. A literatura é, sobretudo, isto: uma instância de sentido. 

Escritor é uma criatura…

Selvagem e desviada que só é possível no âmbito da ficção.  

Qual o papel de um escritor na sociedade?

Para mim, o escritor, como qualquer artista, só se realiza na denúncia e na criação de sentido. Toda a história da Literatura é a história de uma grande denúncia, e, por isso mesmo, a possibilidade de construção de sentido. Denunciar a precariedade da condição humana, denunciar a finitude da vida, das ilusões, dos risos e da carne, denunciar as opressões sociais, a miséria, a infâmia e o Poder. Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Franz Kafka, Drummond de Andrade e Fernando Pessoa denunciam, mas também resgatam certa humanicidade, possibilitam-nos, através de suas escritas, vivências insurgentes, inconformadas. Hoje, precisamente, em nosso social neoliberal, em que impera uma subjetividade sequestrada pela técnica capitalista, o que espera-se de um artista, de um escritor? A denúncia do horror, e, por conseguinte, a possibilidade de criação de um sentido-outro. Recuso-me, portanto, a compreender a Literatura apenas como artefato estético. Escrever é, de todo modo, comprometer-se.  

Qual o maior aliado de um escritor?

A recusa da banalidade. 

O quê que não dá para ser dito com palavras?

A maior tragicidade da literatura é esta: o real é incapiturável. As palavras esgotam-se em si mesmas, e não alcançam os âmagos do mundo — nunca alcançaremos a frase ideal, portanto. O que a linguagem nos permite é apenas certos apontamentos, aproximações sutis do objeto e do todo. Mas é aqui que reside a beleza da literatura: mesmo compreendendo que o real é inapreensível, a palavra é ainda a uma instância possível contra a banalidade e a finitude. Creio, porém, que a grande questão que se apresenta é conseguir dizer as coisas de modo belo. É a beleza, e não a verdade, o paradigma do fazer literário. A beleza pode também ser monstruosa, feia, porosa. Dizer a beleza é um exercício de artesania, com disciplina e esmero. O que caracteriza um bom escritor não, necessariamente, o que ele diz, mas como diz. A escolha das palavras, quer dizer, a busca por um estilo, mais do que a escolha dos temas, é a força criadora do fazer literário. E uma boa frase, um bom poema, leva, às vezes, uma vida toda para acontecer. No fim do dia, todo escritor tem a sensação de que havia mais para dizer, de outra forma, com outras palavras. O que dizemos é sempre pouco. E morre. 

Se você pudesse, o que diria para o algoritmo?

Tempo não é dinheiro. E você também vai desaparecer. 

E se você pudesse mudar o lema da bandeira nacional para um que representasse o Brasil atual, para qual seria?

De qual Brasil estamos falando? Do Brasil das elites econômicas? Do Brasil dos poderosos? Do Brasil da burguesia inculta e monopolista? Ou do Brasil dos trabalhadores? Dos famintos? Dos assalariados? Dos desabrigados? Do Brasil dos indígenas? Das pretas e dos pretos? Das gays e das trans? Não há outro lema possível senão este: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”. 

Qual a melhor maneira de encarar a página em branco?

Penso, com Deleuze, que não existe página em branco. Há elementos preestabelecidos, forças nômades, cartografias imaginárias sobre o papel, a tela, o mármore, o palco. No singular da literatura, o escritor está de tal modo povoado de palavras, de dizeres, de idiomas, mesmo que fictícios. A primeira e a última frase são certamente as mais difíceis. Mas elas estão gestadas em algum lugar do corpo. Nascerão, obviamente, na hora incerta. 

Qual a sua maior alegria ao escrever?

Por algum momento, posso, ao escrever, dizer que a vida tem sentido. Escrevo, pois, para morrer menos. Escrever, para mim, é desatualizar o morrer, é fundar territórios nômades, criar subjetividades selvagens, insurgentes. Escrevo, também, porque o outro existe. A literatura é um ato de alteridade. Ao escrever, estou diante do outro, com o outro. Ao ler Cervantes, Platão e Saramago, desatualizamos a solidão, estamos diante de uma companhia radical. É isso o que a Literatura nos promove, encontros e alteridades. 

Se você não pudesse mais escrever, o que faria?

Escrever não é essencial. Escrevo, obviamente, porque me escolhi como escritor. Porque projeto-me no mundo através da literatura. A literatura é, para mim, uma instância de sentido. É o espaço onde melhor me realizo como ser. Sem a literatura, eu sou menos, bem menos. Mas isto não quer dizer que a literatura é essencial. Viver é essencial. Comer. Amar. Estar ao lado dos meus amores. Ter amigos. Buscar um sentido para o existir. Estas, sim, são experiências essenciais. 

A literatura em uma palavra.

Sentido. 

Qual a coisa mais importante que você aprendeu com a escrita?

Nomear é aumentar o mundo. 

Qual sua definição de felicidade?

Gosto de uma frase de Barthes: “Nada de poder, um pouquinho de saber, e o máximo possível de sabor”. 

O que faz você continuar escrevendo?

Porque o sentido só é possível inventado, criado. 

| Entrevista organizada ao som do disco Live & Rare – Live in Vancouver, de Rage Against the Machine |


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Vanessa Passos

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