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A suspensão do mundo | Entrevista com Isabor Quintiere

Isabor Quintiere (@iquintiere) nasceu em João Pessoa, na Paraíba. Graduada em mestra em Letras pela UFPB, é autora do livro de contos A Cor Humana. Isabor encontra inspirações para sua prosa principalmente na literatura fantástica latino-americana e na ficcção científica. Desde sua estreia, tem publicado contos em coletâneas e revistas diversas, atuando também como roteirista de histórias em quadrinhos com Jogo de Sombras (2021). Em 2019, recebeu o Prêmio Odisseia da Literatura Fantástica por seu conto “Madres”, que foi transformado pela autora em roteiro e adaptado para o cinema após a seleção no Prêmio Aldir Blanc de 2020.

Isabor “não diria que o processo de escrever é sentimental” para ela. E para ela, acompanhar outros escritores e escritoras “cria um sentimento de comunidade e apoio que contradiz a ideia de que escrever é um ato completamente solitário”.



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O que a escrita causa em você?

Escrever me transporta para um estado quase meditativo. É uma sensação que eu imagino ser semelhante à de trabalhar em uma escultura, moldando os detalhes com o objetivo de capturar a forma imaginada. Não diria que o processo de escrever é sentimental para mim. Os sentimentos existem antes e depois da escrita, mas enquanto escrevo estou apenas fazendo. E o apenas fazer é uma sensação magnífica, algo que encontro apenas na escrita e no yoga, que é, para mim, o equivalente à corrida de Murakami. Por um instante, o mundo fica suspenso e tudo o que existe é a frase que preciso compor em seguida.

Qual a maior aventura de uma escritora?

O espaço entre a última obra finalizada e o mistério da ideia que ainda está por surgir.

Que livro você gostaria de ter escrito?

“O homem que caiu na Terra”, de Walter Tevis. Recheado de questões que me são queridas na literatura: ficção científica, filosofia, sensação de deslocamento, solidão… Uma história interessante e pungente, que se faz extremamente humana através do não-humano.

Que livro você jamais escreveria?

Um manual de escrita literária. Adoro lê-los, mas odiaria escrevê-los.

O que ainda falta ser dito em literatura?

Felizmente, nada. Assim não precisamos ter medo de repetir temas.

Livro bom é…

…livro que te surpreende, seja na forma ou no conteúdo.

Escritora é uma criatura…

…bem mais prevalente na sociedade do que parece, mas evasiva e camuflada, arredia, assustada. 

Qual o papel de uma escritora na sociedade?

Ser um discreto tijolo na casa da memória de quem a lê.

Qual o maior aliado de uma escritora?

O contato com outras escritoras e outros escritores. Estar próxima de, e acompanhando, gente que está explorando esse mesmo ofício no mesmo tempo (e, melhor ainda, no mesmo espaço – região, estado, cidade) que você. Cria um sentimento de comunidade e apoio que contradiz a ideia de que escrever é um ato completamente solitário.

Como encontrar a palavra certa, o termo justo, a frase ideal?

Parando de ver a sua escrita com santidade. Permitir-se demolir a própria criação e refazê-la quando necessário, sem apego.

O quê que não dá para ser dito com palavras?

Acompanhar uma criança crescendo desde sua gênese. 

Se você pudesse, o que diria para o algoritmo?

Que um dia ele será coisa do passado, mas que até lá incomoda bastante.

E se você pudesse mudar o lema da bandeira nacional para um que representasse o Brasil atual, para qual seria?

Eu me considero uma pessoa otimista, até porque qualquer pessoa interessada no futuro precisa sê-lo ou iria simplesmente se matar, como bem disse Arthur C. Clarke. Ainda assim, acho morbidamente poética a profecia de Simón Bolívar para a América Latina: “nunca seremos felizes, nunca”. Daria um microconto de terror em forma de bandeira e faria perfeito sentido com o que fomos e somos historicamente. Ao mesmo tempo, carrega uma beleza sabendo que, apesar dessa máxima, ainda seguiremos tentando e perseguindo a felicidade até o fim.

Qual a melhor maneira de encarar a página em branco?

Sabendo que você não deixará de ser escritor se ela continuar em branco por hoje ou amanhã.

Qual a sua maior alegria ao escrever?

Sou simples, fico empolgada quando consigo uma “chave de ouro” (uma frase final que considero perfeita).

Se você não pudesse mais escrever, o que faria?

A minha ironia é que eu preciso muito mais da leitura do que da escrita. Infinitamente mais. Para mim, a escrita é uma feliz consequência da leitura. Então eu provavelmente seguiria sendo “apenas” uma alegre leitora.

A literatura em uma palavra.

Preenchimento.

Qual a coisa mais importante que você aprendeu com a escrita?

Que cada vez que alguém te lê, é um acontecimento – para você e para o leitor. Importa menos a quantidade de leitores quando você percebe que todos eles têm qualidade ao seu modo.

Qual sua definição de felicidade?

Solitude sem solidão.

O que faz você continuar escrevendo?

Uma sincera curiosidade de saber para onde as ideias me levarão, como criança acompanhando rastro de formiga e interferindo com o dedo aqui e ali.

*Entrevista organizada ao som do disco Modehuman, de Far From Alaska


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Vanessa Passos

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